O artista / A história

Sobre Fabian Mendes

Raízes em Pernambuco. Um olhar aberto para o mundo.

Fabian Mendes nas ruas de Olinda
Olinda, Pernambuco / 2022

Uma vida de encontros

Sobre esse grande artista pernambucano

Recifense, nasceu no dia 21 de junho de 1963, morador de Olinda, autor de diversas músicas de gêneros variados. Participa do Bloco Lírico Artesãos de Pernambuco. Respira a cultura nordestina, ama o Brasil e a bandeira do seu Estado.

Gravou o seu primeiro álbum, Doces Cores, em 2016. Entre 2019 e 2021, gravou o álbum Estrela do Estelita.

Também em 2021 compôs e gravou um álbum com músicas infantis, Quando Crescer Quero Ser Criança. Moendo o Tempo também integra seus projetos musicais.

Fabian mistura ritmos como maracatu, samba, frevo e jazz, com forte influência de suas raízes multiculturais e compromisso com a boa música brasileira.

Conheça sua música

Um lema para a vida

“Extrair e divulgar as coisas boas e positivas em qualquer contexto, e de qualquer fato.”
Fabian Mendes

Literatura

Em 2006 Fabian Mendes lançou um livro de crônicas, contos e poemas, de título: O Tempo

Capa do livro O Tempo, de Fabian Mendes
O Tempo
por Fabian Mendes

...Com o sol quase em ângulo reto, e o cansaço de subir aquela inclinação, parei para um descanso e bebi um pouco de água. Coisa que certamente Moisés fez em sua grande escalada. Comi um sanduíche que havia preparado em casa, e já avistava o topo dos edifícios da cidade...

..Um silêncio selvagem pairou no ar, deixando meus ouvidos sensíveis. Passei a escutar um barulho que vinha de muito longe, e muito semelhante ao de um trovão...

Trechos do conto: O Ronco da Cidade

Entre uma página e outra

Palavras para
ficar um pouco.

O Dono do Horror

De ego distorcido

Não gosta de sol,

Nem nunca plantou

Para amenizar o sulco fundo

Da anêmica face sua

E ser melhor que parece

Se senta no jardim azul

Postando na rede a selfie

Em que se mostra sorrindo

Exibindo seu peito nu

Vitória no Alto do Céu

O poeta, o artista, o político e o sociólogo precisam ir onde o povo está. Ontem, meu carro quebrou e precisei fazer alguns compromissos usando o transporte público. Vi, como nossos ônibus estão deteriorados, além de serem tão inconfortáveis. Como faz calor em Recife, como fica longe cada deslocamento, como balançam e são instáveis esses transportes. Quanta insegurança!

Na volta, a noite, lá pelas oito horas... Entrei na plataforma do Alto do Céu. Subi uma rampa quase vazia e pensei: como o céu está vazio! Mas havia, na minha frente uma mãe, com uma criança no colo, e uma menina magrinha, levando uma sacola plástica que parecia muito pesada. A menina, aparentando uns cinco anos, suada, trocava de mãos a cada cinco segundos, devido àquele pesado pacote, enquanto caminhava, subindo naquela longa e íngreme rampa, a uns quatro passos atrás da que deveria ser sua mãe, que também suava enquanto carregava um bebê. Andei um pouco mais rápido e fiquei ao lado da criança, que me olhou e sorriu dizendo: - meu nome é Vitória, aquela é minha mãe e minha irmãzinha. O nome da minha irmãzinha é Poliana, ela já fala e diz papai, mas fala pouco porque ela é novinha.

A menina, novinha, Poliana, me olhava conversando com Vitória, parecia entender aquela conversa. Poliana, bem penteada, vestida com um macaquito branco, tinha os olhos, bem pretinhos, e quando eu ria, conversando com Vitória, ela parecendo entender, também ria. A mãe, também suada, trocava de ombro a cada tempo para aliviar a coluna castigada pelo peso do bebê. Então perguntei a Vitória se sua irmãzinha tomava “gagau”, ela de imediato respondeu: - não ela não toma gagau, ela gosta de comer feijão e arroz, adora cuscuz! Fiquei assombrado, um bebê, daquele tamanho, comer cuscuz e feijão?

A mãe, vez em quando, olhava de lado para ver com quem a filha conversava. Perguntei a Vitória se a sacola estava muito pesada, ela respondeu, novamente, de imediato que não. Por fim chegamos ao final da longa rampa. A plataforma estava vazia. No canto esquerdo havia uma cadeira com quatro lugares. A mãe sentou na penúltima cadeira, Vitória sentou, ao lado da mãe, e eu depois da incrível Vitória.

A mãe aparentava uns dezoito anos, a cor predominante da sua pele era a negra, e ainda, nada falava comigo. Eu é que resolvi parabenizá-la pela falante e inteligente filha que ela tinha. Ela agradeceu, e parecia está aliviada por ter se sentado.

Vitória, logo começou a tagarelar: - da última vez, num foi mãe? A gente tava aqui e veio dois ladrões, com um revólver, levou o celular da minha vó e os de todo mundo que tava aqui. Ainda bem (disse sorrindo) que não levaram meu “trabete” (ela queria dizer tablete), senão eu não sei o que seria: eu dava um tiro nele. Então eu retruquei: um tiro? Não diga isso não, sempre entregue, não deve reagir. Ela continuou a dizer que dava um tiro sim. Naquele momento, a pequena Poliana não tirava os olhos da conversa, e em momentos de descontração ria, como se entendesse tudo.

Falei para a mãe: poxa tua filha é danada, mais fala né? A mãe responde: é assim o dia todo não tem quem aguente.

A plataforma já estava com muita gente. Eu observava aquele pessoal chegando, e pensava: como meu Recife está pobre, como meu Recife está sofrido. As pessoas chegavam, com roupas muito simples, amarrotadas e mal lavadas. Com os cabelos e barbas não feitas, ou não tratados. Demonstrando, a todo o tempo, os olhares desconfiados umas para os outras, enquanto poucas, incomodadas, desviavam o olhar.

Então Vitória continuava sua infindável conversa: - o nome da minha Professora é Bianca, ela é bem boazinha. Ela disse que a gente tem que comer tudo o que a mãe coloca na mesa para ficar inteligente. Eu sou inteligente, não sou como os meus colegas da sala. Sei as letras... (e diz algumas). Quando crescer, eu quero ser muito inteligente! Minha Professora diz para não responder a mãe, e também diz outras coisas boas!

Para fundamentar as suas palavras ela fala: Jesus também diz isso!

Eu, olhava para ela, e confirmava que estava certa, e novamente ela me surpreende: - você é crente? E em seguida deu uma gargalhada (sorrindo com ela, estava a Poliana). Respondi que não, mas as palavras estavam certas. Então diz mais uma vez sorrindo: - eu sou! E continuava: na minha casa, tem eu e minha irmãzinha, ela é pequenininha e ainda não entende as coisas, e também tem a minha irmã Ana... A mãe retruca na hora: - sua irmã está no céu! É... Continua: - minha irmã está com Papai do céu. Mas tenho uma saudade dela...!

Aí eu Pergunto: você conheceu ela? E a mãe mais uma vez interfere: - não ela não conheceu. Então a Vitória continua: - não conheci, mas gosto muito dela. A minha irmã Ana, Poliana e eu somos filhos de papai, não é mamãe? A mãe afirma que sim. Ainda tagarelando, diz: - nós vamos encontrar com meu “pradristo” (a mãe corrige: padrasto). - Sim padrasto.

Então chega o trem. A mãe observa logo uma cadeira de quatro lugares reservados para deficientes, gestantes e afins e então diz: - eita! Ainda bem que tem uma cadeira vazia!

No trem, observo ainda mais, a degradante situação da minha gente recifense. Muitos ambulantes vendendo pipocas, salgadinhos e água mineral. De repente apagam-se as luzes do vagão, então digo: eita faltou luz. Vitória encostada à sua mãe diz: - num faltou luz não, faltou foi energia. Então eu, eletrotécnico, ri! Na parada seguinte, sobem três ambulantes levando um tabuleiro com bijuterias feitas a mão. Pareciam bem doentes da alma e do corpo. Vitória então fica observando aqueles salgadinhos, com olhos bem grandes. Enquanto observa diz: - nós vamos pegar o ônibus PE15, você vai pegar qual? Então respondi: não sei. Ela fecha um pouco os olhos e diz: - como eu não sei? Então enrolei e disse que ainda estava resolvendo. Ela então pergunta: - porquê você não pega também o PE15. No momento passava um vendedor de salgadinho, eu chamei e disse: por favor dê um salgadinho para aquela menina. O ambulante falou: um real! Ok. A mãe logo diz para Vitória agradecer. Muito obrigado! Normalizando o tamanho dos olhos.

Chega a Estação Afogados e ela se despede de mim olhando para trás, esperando que eu a acompanhe. Aceno para ela: tchau!

Do Alto do Céu, desidratado de esperanças e alegrias, surge um Anjo chamado Vitória, que tem um Anjo no céu que lhe acompanha. Vitória também tem um Anjo de olhos pretos que lhe observa na fala e na ação, esse Anjo que é carregado nos ombros da mãe diz para Vitória: - você vencerá! Você é o nosso mundo do hoje e do amanhã!

Conto de Natal

Então o destemido homem, com 32 anos de idade, soube que tinha um filho, com Maria Madalena, e que este se chamava Immanuel. No dia 23 de dezembro, durante a noite, o persuasivo Cristo resolveu visitar e conhecer a criança que iria fazer 1 ano de idade. Para presenteá-la, fez um coração de pano, com a parte do capô da manta, que usava para cobrir a sua face, quando queria transitar sem ser reconhecido. Por ser, desprovido de recursos econômicos, e quase um maltrapilho, os pais de Maria Madalena não permitiram sua visita. De forma sinistra, fecharam a porta da casa, apagaram os candeeiros, e em silêncio ficaram para parecer desabitada. Quase que mataram o bebê Immanuel, sufocado, fechando a sua boca com a meia suja de soldado do seu avô, no intuito de evitar o choro do bebê. O homem que trazia um coração de pano em suas mãos, bateu na porta sete vezes, mas a porta não se abriu. Maria Madalena, magrinha, muito franzina, contida pelos fortes braços da sua mãe, chorava em silêncio com aquela constrangedora situação. O frágil homem, de forte emoção, preferiu não mais insistir. Viu uma pequena oliveira que nascia ao lado da vazia casa, e lá depositou o coração de pano que havia feito com tanto carinho. À frente deste presente, no chão, riscou, com o dedo indicador, duas letras: a letra "i" mais a letra "m". Virou as costas e nunca mais voltou àquele lugar.

Mais tarde, o já adulto Immanuel, tornou-se escritor e escreveu três livros de grande brochura, com os seguintes títulos:

  • Todo Amor se Chama Maria;
  • Porquê me Abandonastes?;
  • Feliz Natal Papai.

Livros que foram queimados pela Inquisição Católica, numa sexta-feira santa...